Enquanto o Amazonas já vive há dois meses sob fumaça de queimadas que se espalham pelo sul do estado e região metropolitana, o geógrafo do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), Carlos Durigan, afirma que os próximos meses podem ser ainda piores.
Desde o ano passado, a ciência vem alertando para a chegada do El Niño em níveis mais intensos, mas não somente. A previsão é que o fenômeno se estenda até o primeiro trimestre de 2027, afetando mais ainda a seca do próximo ano, assim como ocorreu em 2023 e 2024, quando o El Niño contribuiu para as duas maiores secas da Amazônia – uma seguida da outra.
Ele também comentou sobre a formação do novo Congresso Nacional, avesso à pauta ambiental, e alertou para a importância de os eleitores considerarem a crise climática ao irem às urnas no dia 25 de outubro.
Confira a entrevista:
Por que estamos vendo um alto número de queimadas enquanto estamos imersos em fumaça? O que está acontecendo?
O que nós temos é uma conjunção de fatores. Em primeiro lugar, a gente está, desde o ano passado, e as próprias instituições que fazem o monitoramento do clima, tanto internacionais quanto nacionais — no nosso caso, o IPAM, todas as estruturas da gestão pública — têm mostrado essa retomada de um período sob a influência do fenômeno El Niño. Isso está se consolidando já neste segundo semestre. Nós já temos um processo também de seca acentuada.
Nós tivemos, em 2023 e 2024, uma situação similar, mas não tão longa, porque as variações, já que nenhum ano é estritamente igual ao outro, trazem algumas particularidades. No nosso caso específico, a gente está vivenciando o cenário de super El Niño, com o potencial de pico para acontecer em dezembro deste ano, potencialmente. É o que as previsões têm demonstrado.
Isso gerou, desde julho, meses de verão amazônico com chuva abaixo da média. Esse é o primeiro elemento que mostra a composição de um cenário em que nós temos estresse hídrico e estresse térmico em boa parte da Amazônia, em especial na parte central: pega desde o oeste do Pará, Santarém, seguindo a oeste até Manaus, e pega um pouco ao norte e ao sul. Nós temos um grande bloco da região amazônica com precipitações abaixo da média, constituindo um cenário muito seco e muito quente.
Nós já sabíamos que isso aconteceria e ainda assim estamos imersos no problema em um nível muito ruim. Os governos estadual e federal tomaram medidas, como decretos, aumento de efetivo e até uso de aeronaves. Ainda assim, as queimadas parecem longe de estar controladas. Por quê?
Só para complementar a questão anterior, temos esse cenário único [do El Niño e baixa precipitação] que é potencializado por algo mais amplo, que é o aquecimento global. O ano de 2026 já é o mais quente. Os últimos anos foram os mais quentes já registrados. Nesse ambiente, cria-se o cenário ideal. Claro, o fogo não aparece sozinho: ele é fruto das atividades humanas. A fumaça que nós estamos vendo sobre a cidade é resultado da queima promovida por pessoas, principalmente em áreas rurais, apesar de também termos incêndios em áreas urbanas.
O que está acontecendo — e chegando à segunda questão — é que, com tudo que a gente tem de previsibilidade, melhor do que no passado, cenários constituídos a partir dessa capacidade de entender os processos, eu acho que a gente ainda tem uma fragilidade na capacidade operacional nos territórios. Para um cenário como esse, em que os índices pré-hídricos e pré-térmicos estão exageradamente altos, gerando um cenário muito propício à propagação de incêndios, qualquer atividade humana que use fogo precisa ser respondida ao máximo.
Por mais que isso seja importante, o emprego do fogo, nós temos uma relação com o uso do fogo desde a agricultura tradicional amazônica, de povos indígenas e tradicionais, que usam o fogo como ferramenta de abertura de novos roçados, ao mesmo tempo nós temos o uso criminoso do fogo, muitas vezes para queimar áreas, promover grilagem irregular, expansão de áreas sobre áreas públicas, áreas de conservação, territórios que muitas vezes são invadidos. E o fogo é instrumento para esse tipo de ação criminosa.
Eu acho que a fragilidade nossa é fazer com que o engajamento nos territórios, ações concretas de limitação do uso do fogo, sejam maiores, porque, por exemplo, a população urbana, na sua maioria, já vivencia isso. A população rural está sentindo os efeitos agora, inclusive a gente tem visto ameaças diretas, até a residências, à produção, à infraestrutura. E, claro, está todo mundo respirando fumaça.
Nós vemos os efeitos na parte em que o cenário se constitui como de grande incidência de fumaça e dispersão desses poluentes. Mas a maioria dos focos é humana; alguns são acidentais, outros são criminosos, intencionais.
Nós precisamos ter uma capilaridade nas ações nos territórios que faça com que as pessoas, em períodos como esse, entendam: a gente já está prevendo, já vai ser difícil. Como a gente faz para substituir o uso do fogo para abertura de roçado? Como a gente melhora nossas atividades? Que tipo de contenção nós precisamos fazer em caso de acidente com o fogo? Isso tem que ser capilarizado. E eu acho que a estrutura dos municípios precisa integrar as forças de ação nos territórios. Isso é um elemento essencial.
O senhor fala sobre o uso do fogo como algo cultural. Nós temos um decreto que proíbe o uso do fogo para uma série de atividades neste período, como a limpeza de terrenos, e os bombeiros têm feito ações de conscientização, segundo a corporação informou em julho. Ainda assim, os problemas continuam. É preciso ir além disso?
Nós, do IPAM, temos nos engajado em uma série de ações em alguns estados que envolvem o trabalho de treinamento, de formação relacionado ao Plano Nacional de Manejo Integrado do Fogo, que envolve, inclusive, o enfrentamento de crises como essa que a gente está vivendo e a prevenção de cenários como esse.
O importante é que as ações que nós temos planejado e delineado, ou mesmo decretado em alguns casos, precisam ser feitas no território de uma forma mais ampla. Nós precisamos ter técnicos e técnicas engajadas no processo de formação nos territórios, para que nós tenhamos uma adesão gradativa e crescente, principalmente de produtores rurais ou mesmo de comunidades ribeirinhas e indígenas, cada vez mais no controle do uso do fogo, em especial em períodos como esse.
Por exemplo, pensar uma estrutura que permita ter presença no território, como oficinas, como trabalhos colaborativos, que transformem essa realidade que gera cenários como esse em momentos críticos como o que a gente está passando, de estiagem. É preciso haver esse trabalho preventivo, envolvendo cada vez mais as pessoas que estão nos territórios, sejam produtores rurais individuais, sejam grupos que vivem em comunidades. Precisa haver um trabalho coletivo para fazer a construção de um cenário de prevenção.
Isso porque, os incêndios florestais, uma vez que se instalam, se transformam em um cenário de difícil enfrentamento. Se a gente colocar toda a estrutura existente hoje para o enfrentamento, mesmo assim a gente tem dificuldades de fazer com que esses cenários sejam extintos de uma hora para outra.
A ciência não só avisava do cenário preocupante neste ano, mas também para uma piora em 2027. Temos tempo de nos prepararmos para isso? Se sim, o que os governos precisam fazer?
Bom, nós estamos num período que, tudo indica, pode ser bastante difícil nos próximos meses, porque as previsões apontam para meses de estiagem ainda extremas à frente. E ações para darem resultados precisam ser efetuadas nos territórios.
É preciso, a partir do momento que nós temos a informação, fazer um monitoramento diário climático e também de onde estão se concentrando os problemas maiores, como o uso criminoso do fogo. É preciso haver ações concretas nos territórios para trazer as pessoas a um engajamento maior para as ações de prevenção. Isso deve fazer parte de uma agenda de enfrentamento da crise com que a gente está passando.
Também é preciso que a gestão pública esteja preparada para dar suporte às pessoas que vivem em áreas remotas, que podem precisar de apoio: desde provimento de alimentação e mesmo água potável, medicamentos e suporte logístico para o enfrentamento de potenciais crises, porque pode haver, com o agravamento da seca nos próximos meses, inclusive uma dificuldade maior com o deslocamento, com questões relacionadas à logística em muitas áreas.
O novo Congresso eleito tem uma aversão maior ao tema em comparação ao atual, segundo o Observatório do Clima. O que esperar dos parlamentares na próxima legislatura e como dialogar com esse Parlamento?
O cenário que nós vivemos está relacionado diretamente a ações humanas que causam a degradação ambiental e climática do planeta. Nós já vivemos efeitos de uma crise que é agravada por ações humanas que causam grande degradação, como o desmatamento, como emissões de gases de efeito estufa, gases que estão causando o aquecimento do planeta.
A transformação do uso da terra é uma grande contribuição a esse cenário. O desmatamento e a mudança no uso do solo são as principais contribuições do Brasil, que está entre os seis maiores países emissores do planeta.
Então, pensar em um Congresso majoritariamente avesso à pauta ambiental, ou mesmo trabalhando contra todo o arcabouço legal e normativo criado no Brasil ao longo de décadas para a proteção ambiental, gera um cenário preocupante, com potencial aumento de problemas causados pela degradação ambiental a toda a sociedade.
Esse é um elemento que leva à necessidade de a sociedade estar atenta e monitorando as ações que levem a retrocessos na pauta ambiental e nas políticas públicas nacionais, porque os avanços que nós temos vivenciado nos últimos anos foram construídos a muitas mãos e fazem parte de um movimento global que leva à construção de uma agenda de enfrentamento da crise que nós vivemos.
Retrocessos nessa pauta e nessa agenda podem nos levar a um cenário muito mais desafiador no futuro. Nós precisamos ter um cenário de manutenção das agendas, das conquistas da agenda socioambiental no país e no mundo também. Nós precisamos que a sociedade esteja atenta a isso.
Também estamos em meio a uma disputa de segundo turno presidencial. Quão importante é essa escolha para o futuro do país, especialmente na questão socioambiental?
Considerando que nós ainda temos um segundo turno pela frente, tanto para o estado do Amazonas quanto para o governo nacional, federal, eu entendo que isso nos coloca diante de uma encruzilhada, onde nós temos propostas alinhadas a uma agenda que tem sido estabelecida para o enfrentamento da crise climática e ambiental que nós vivemos, que afeta diretamente pautas sociais e econômicas, não só no Brasil, mas em todo o mundo.
E nós temos propostas que vão contra as agendas que estão estabelecidas no Brasil e no mundo, inclusive com candidaturas que negam o cenário de crise climática que nós estamos vivendo. Esse é um desafio muito grande que se coloca a todas as pessoas e que deveria ser um elemento fundamental na escolha de seus candidatos e candidatas.
Eu acho que é uma escolha que cada um faz, mas que tenha consciência de que o caminho a trilharmos a partir dessa encruzilhada vai depender dessa decisão.













