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Pessoas físicas têm perdas com apostas nas eleições
Investidor perdeu R$ 1,2 milhão com opções de ações. Crédito: Edição: Júlia Pereira
A sangria nos mercados, após a derrota de Flávio Bolsonaro (PL) nas eleições de domingo, 25, não ficou restrita ao bolso de gestores profissionais e grandes fundos de investimento. Muitas pessoas físicas também amargaram perdas pesadas, ao se posicionarem de maneira alavancada em aplicações com as quais ganhariam dinheiro caso Lula (PT) fosse derrotado.
Há diferentes relatos nesse sentido nas redes sociais. Um deles, segundo Hégler Henrique, sócio e gestor da Amplus Capital, é o de um investidor que perdeu R$ 1,2 milhão. Outro, foi de um investidor que é funcionário de uma estatal e não quer ser identificado, que não só perdeu todo seu patrimônio, de cerca de R$ 400 mil, como ficou devendo R$ 700 mil na plataforma XP. Procurada, a XP não se posicionou.
Hégler, especialista em derivativos e com pouco mais de 66 mil seguidores no X, foi procurado por esse investidor, que pediu ajuda. “Vc conhece algum advogado de contencioso bancário e ou mercado de capitais para me indicar”, escreveu o investidor, numa mensagem direta ao gestor.
“Me emocionei quando conversamos porque ele tem uma filha da idade da minha”, diz ele. “Perder tudo e ainda ficar devendo R$ 700 mil faz falta para muita gente.”

Flávio Bolsonaro desembarca em Miami: investidores apostaram em sua vitória Foto: Ricardo Arduengo/AFP
Apesar de ser um caso extremo, está longe de ser único. Hégler montou uma força tarefa com sua equipe para ajudar quem teve perdas com apostas feitas com as eleições. Afirma ter sido procurado por mais de 40 pessoas. “Mas tenho certeza de que são milhares que se deram mal não só no mercado de ações, mas também com dólar e índices futuros”, afirma.
Outro especialista que afirma ter recebido relatos semelhantes é Victor Garcia, que trabalha com order flow (ou fluxo de ordens), técnica de análise do mercado financeiro que consiste em acompanhar a intenção de compra e venda dos grandes investidores em tempo real. “Estou conversando com pessoas que perderam todo o patrimônio apostando na Bolsa e na Polymarket (mercado de previsões) em uma ‘eleição ganha’”, postou.
Em entrevista, Garcia, também educador financeiro, afirmou que houve investidores que o procuraram com perdas superiores a R$ 5 milhões. Porém, o que ele sentiu mais foi um pequeno investidor que perdeu todo o patrimônio.
“O que mais me incomodou nesse processo eleitoral não foram apenas as apostas feitas no mercado financeiro, mas principalmente a maneira como muitas pessoas foram expostas a riscos que aparentemente não compreendiam”, afirmou.
‘Me arrombei’
Hégler postou um print de conversa no qual pessoa que investiu escreve: “Dormi vendido num put (opção de venda de ações) de BBAS3 (Banco do Brasil) num volume astronômico, pensando na vitória do Flávio. Me arrombei. Quebrei a conta e fiquei devendo -700k na XP.”
Esse investidor operou num mercado de altíssimo risco, o de opções. Quem faz esse tipo de investimento assume a obrigação de comprar ou vender uma ação a um preço fixado previamente. Ele confiou na vitória de Flávio Bolsonaro e usou sua poupança de R$ 400 mil como margem de garantia na corretora. Fez uma operação gigante e assumiu o compromisso de comprar ações do Banco do Brasil caso o mercado caísse. Ele esperava que isso não fosse acontecer porque tinha certeza de que os papéis subiriam.
Como o candidato perdeu, os papéis do BB despencaram quase 30% no pregão seguinte. Esse tombo acionou os contratos que o investidor havia vendido, obrigando-o a honrar a compra das ações por um preço muito acima do que elas realmente valiam no momento.
Como o tamanho da operação superava em muito o seu patrimônio, o prejuízo engoliu instantaneamente os R$ 400 mil depositados. Para estancar o rombo, a XP encerrou a posição à força por meio de uma zeragem compulsória. O movimento fez com que ele perdesse todos os seus recursos e ainda ficasse devendo R$ 700 mil à corretora.
Saiba mais:
O investidor buscou a indicação de um advogado especializado em contencioso bancário ou mercado de capitais para tentar reverter a situação. Mas não há o que ser feito, já que ele assumiu o risco ao fazer esse tipo de investimento. “A orientação que eu dou é a zerar essas operações para preservar algum valor residual e orientar para que ele evite tentar recuperar os valores a qualquer custo porque muitos acabam perdendo ainda mais”, diz Hégler. “Nesse caso, o que dá para fazer é pelo menos buscar algum acordo para negociar e parcelar a dívida que porventura ficou.”
Detalhe: caso Flávio tivesse vencido, os ganhos seriam limitados a, no máximo, R$ 200 mil.
Para Hégler, não foi a paixão política que levou esses investidores a amarrarem essas posições arriscadas, mas o fato de as pesquisas apontarem a liderança a Flávio na intenção de voto. E, também, desconhecimento do mercado. “As pessoas físicas confiam muito em assessores de investimento e influenciadores que disseminam operações extremamente arriscadas”, diz. “O mais importante é conhecer, estudar e entender os riscos de operar num momento tão complexo e de extrema volatilidade.”
Apostas em plataformas internacionais de mercados de previsão
Chamou a atenção de Garcia a quantidade de relatos de pessoas que fizeram apostas em plataformas internacionais de mercados de previsão, como Polymarket e Kalshi, colocando volumes muito elevados de dinheiro na vitória de Flávio Bolsonaro.
“Por que esses valores eram tão altos? Porque a vitória dele passou a ser tratada, em determinados grupos, como um resultado praticamente certo”, diz ele. “Com isso, as cotações ofereciam um retorno proporcionalmente menor. Para conseguir um lucro considerado relevante, a pessoa precisava comprometer uma quantidade muito maior de dinheiro.”
Segundo Garcia, existe uma contradição nessa hipótese. “Como você pode tratar uma eleição como praticamente decidida quando as pesquisas eleitorais continuam mostrando uma disputa extremamente apertada, muitas vezes dentro da margem de erro?”
Para ele, houve um ambiente de estímulo muito forte a esse tipo de comportamento. “A convicção política acabou sendo confundida com uma análise de probabilidade, e muita gente passou a assumir riscos incompatíveis com o próprio patrimônio”, disse.
E o mercado financeiro, nesse contexto, também acabou sendo utilizado como uma espécie de casa de apostas, ele afirmou.
“Estamos falando de dinheiro que muitas vezes levou anos, ou até décadas, para ser construído”, disse Garcia. “No fim, o problema não foi simplesmente apostar no candidato que perdeu. Foi assumir um risco enorme para buscar um retorno que, muitas vezes, nem sequer justificava a possibilidade de perda.”
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