Vorcaro encomendou vídeos para atacar jornalistas Malu Gaspar e Lauro Jardim


BRASÍLIA – O banqueiro Daniel Vorcaro encomendou vídeos apócrifos para atacar os jornalistas Malu Gaspar e Lauro Jardim, de O Globo, por coberturas críticas às operações financeiras do Banco Master. Os conteúdos eram divulgados para tentar descredibilizar os profissionais sem referências a quem estava por trás das produções.

A estratégia aparece em conversas de Daniel Vorcaro com a então superintendente de Comunicação e Marketing do Banco, Ana Lúcia Matos, encontradas pela Polícia Federal.

Em nota, O Globo repudiou a campanha de difamação dos dois jornalistas. “Trata-se de mais uma tentativa de intimidar a imprensa e desacreditar o jornalismo profissional, pilar fundamental da democracia. O GLOBO e seus jornalistas não se intimidarão e seguirão apurando e noticiando, com rigor e independência, os fatos de interesse público”, disse.

Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, em frente à logo da empresa (Foto: divulgação) 

A defesa de Daniel Vorcaro pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) investigação sobre o vazamento das conversas. Ana Matos, que trabalhou no banco até dezembro de 2025, disse que não teve acesso ao material e não tem como verificar a autenticidade (leia mais abaixo).

Em mensagens de 3 de março de 2025, Matos encaminhou um rascunho de roteiro ao chefe e sugeriu que ele lesse “pensando que seria um vídeo curto com a cara do Lauro voando na tela e essa locução”. Em seguida, ela pediu o aval de Vorcaro: “Seria mais ou menos isso?”.

O texto proposto dizia: “Engraçado, né? O jornalista do Globo parece ter até crachá de acesso ao prédio do Malzoni, em São Paulo – praticamente um colaborador fixo do BTG. O que será que ele faz tanto lá, gente? Café com vista pro Faria Lima? Brainstorm de pauta? Porque, curioso mesmo, é que nas notas dele… do BTG a gente não vê nada”. A sede do BTG Pactual em São Paulo fica localizada no Edifício Pátio Victor Malzoni, no Itaim Bibi.

Vorcaro recomendou “tirar Globo” do texto e “atacar a física”, em referência à ideia de direcionar o ataque ao jornalista e não à empresa para a qual ele trabalha. “Resto ficou excelente”, aprovou o banqueiro.

“Vou atrás de montar isso. Eu adoraria cutucar o Globo junto”, respondeu Ana Matos.

A superintendente disse que precisava ver “o que pegar” de Malu Gaspar, mas garantiu a Vorcaro que acharia “alguma coisa”. Mais tarde, reapareceu com uma ideia de vídeo contra a jornalista e a submeteu para avaliação do banqueiro.

“Abaixo seria uma ideia de vídeo com locução e imagem da Malu voando, numa vibe mais mediúnica”, explicou, antes de apresentar o texto da produção: “A Malu Gaspar é a Mãe Diná da Faria Lima. Faz matérias com toda a certeza do mundo… pena que quase nunca se confirmam. E as fontes? Só podem ser disco voador: todo mundo fala, mas ninguém nunca viu!“.

A superintendente encaminhou a Vorcaro o vídeo pronto. Daniel Vorcaro aprovou o texto, mas não gostou do produto final que lhe foi apresentado. “Ana, o texto ta legal mas esse video nao ta nao. Dois almofadinhas falando”, escreveu.

A reportagem não teve acesso ao vídeo compartilhado.

Depois de reavaliações, Vorcaro disse que não era para incluir foto do Lauro na produção, “pq ta na cara que e nosso”.

“Vamos pensar. Enquanto isso vou fazer esse modelo que vc mandou. O lauro de crachá vai viralizar. Vira figurinha”, respondeu a funcionária do banqueiro.

Em outra troca de mensagens interceptadas pela PF, Vorcaro chegou a pedir para Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o “Sicário”, responsável pela execução de atividades voltadas à obtenção de informações sigilosas e ao monitoramento de pessoas, que Lauro Jardim fosse agredido em um assalto forjado. “Esse Lauro quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os dentes. Num assalto”, disse o banqueiro.

Já sobre Malu Gaspar, Vorcaro acionou o publicitário Thiago Miranda para promover uma verdadeira devassa na vida pessoal da colunista. Mensagens interceptadas pela PF mostram o banqueiro ordenando: “Vamos ter que pegar algo dessa mulher no pessoal”. Miranda prometeu “revirar a vida dela”, mas a busca foi frustrada. “Nem multa na CNH dela encontrei”, disse o publicitário.

A defesa de Daniel Vorcaro pediu ao STF, na sexta-feira, 16, uma investigação sobre o vazamento das conversas privadas. Os advogados dizem que ele está sofrendo um “processo de linchamento público”.

Ana Matos, que não é investigada no âmbito do esquema de fraude bilionária da compra do Master pelo Banco de Brasília (BRB), afirmou que tem razões “para questionar a integridade dos trechos divulgados e suspeitar que tenham sido selecionados e editados, fora de contexto, para atender a interesses que desconheço”.

A reportagem submeteu os trechos citados no texto a ela, para que apontasse as supostas distorções. Não houve resposta.

“Decidi me posicionar porque tenho razões para questionar a integridade dos trechos divulgados e suspeitar que tenham sido selecionados e editados, fora de contexto, para atender a interesses que desconheço. Não tive acesso ao material original e não tenho como verificar sua autenticidade. Responder pontualmente aos trechos apresentados significaria validar um conteúdo cuja procedência desconheço. Tenho sido submetida à exposição pública sem acesso aos elementos necessários para compreender essas divulgações e exercer plenamente minha defesa”, disse, em nota.

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