A espera por justiça no Tribunal do Júri
Após cinco anos de uma trajetória marcada pela dor e pela busca por respostas, os pais de Kathlen Romeu, a comerciária Jacklline de Oliveira e o professor Luciano Gonçalves, preparam-se para uma etapa decisiva. No próximo dia 26 de novembro, às 10h, o Tribunal do Júri julgará os policiais militares Rodrigo Correia de Frias e Marcos Felipe da Silva Salviano, acusados pelo assassinato da jovem e de seu bebê, ocorrido em 2021, no bairro do Lins de Vasconcelos, Zona Norte do Rio de Janeiro.
Kathlen, que estava grávida de quatro meses, foi atingida por disparos durante uma ação policial enquanto visitava a avó. A versão apresentada pelos agentes, que alegaram estar em confronto com criminosos, nunca foi comprovada. Para a família, o julgamento representa não apenas a busca por punição aos responsáveis, mas um clamor para que a sociedade civil mantenha a mobilização contra a letalidade policial e em defesa da vida.
O impacto da violência e a luta por reparação
A perda de Kathlen interrompeu sonhos e projetos de vida. A jovem, que trabalhava com moda e havia financiado seu primeiro apartamento, deixou um vazio imensurável em seus pais. Jacklline de Oliveira descreve o cotidiano como um enfrentamento constante contra a violência do Estado. Enquanto a mãe busca suporte na terapia, Luciano Gonçalves encontrou na psicologia, curso que cursa atualmente, uma forma de processar o trauma e compreender as dinâmicas sociais que levaram à tragédia.
A família mantém viva a memória da filha através de objetos pessoais e fotos, transformando o luto em um ativismo incansável. Eles enfatizam que a impunidade dos agentes públicos perpetua o ciclo de violência contra a juventude periférica. “Se esses policiais não forem punidos, a sociedade civil também estará matando Kathlen Romeu e o seu bebê”, afirmou Jacklline, reforçando a necessidade de rigor da lei para evitar que outras famílias passem pela mesma experiência.
Desafios no sistema de justiça e dados de letalidade
O caminho até o banco dos réus foi tortuoso. Os policiais chegaram a ser absolvidos de fraude processual na Justiça Militar, decisão revertida pela 6ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Além disso, a família enfrentou entraves durante a investigação, incluindo uma denúncia contra um promotor que teria sugerido o arquivamento do caso, fato que gerou um procedimento administrativo disciplinar no Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, posteriormente arquivado.
A realidade enfrentada pelos pais de Kathlen reflete um cenário mais amplo de violência no estado. Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a polícia fluminense registrou 798 mortes em 2025. Esse número corresponde a quase 20% das mortes violentas intencionais no Rio de Janeiro naquele ano. A baixa taxa de denúncias e condenações em casos de mortes cometidas por agentes públicos, apontada por estudos como os da Rede de Observatórios da Segurança, permanece como um dos maiores obstáculos para a garantia de direitos humanos e justiça no país.











