Você Sabia: 4 em cada 5 brasileiros com demência não sabem que têm o problema
Diagnóstico da condição ainda é desafio no País; conheça os principais sintomas. Crédito: edição: Rafael Nogoceke
Cochilar muito durante o dia, passar por dificuldades financeiras e conviver com ar poluído estão entre os fatores associados a maior risco de demência, segundo um estudo conduzido por pesquisadores de Harvard e publicado na revista Alzheimer’s & Dementia. Praticar exercícios, ter renda mais alta e morar com um parceiro aparecem do outro lado, associados à redução do risco.
Trata-se, segundo os cientistas, da avaliação sistemática mais abrangente até o momento sobre as associações entre a doença de Alzheimer e outros tipos de demência e quase 200 exposições ambientais — desde a poluição até a alimentação e as relações sociais.

Usar computador por mais tempo apareceu no estudo como um dos principais fatores de “proteção” contra o desenvolvimento de demências
Os autores acompanharam quase 500 mil britânicos por cerca de 15 anos. Nesse período, 8.881 receberam diagnóstico de demência, 4.000 deles de Alzheimer. Os dados vêm do UK Biobank, banco que reúne informações de saúde, genética e estilo de vida de moradores do Reino Unido.
A genética pesa, mas não explica a maioria dos casos, e pesquisas anteriores já indicavam que o ambiente também importa. Foi isso que a equipe quis medir, analisando 193 fatores em cinco domínios (social, físico, químico, estilo de vida e ecossistemas). Desses, 76 mostraram associação clara com demências em geral e 34 com Alzheimer.
Essas exposições são um passo além do que a Comissão Lancet sobre prevenção, intervenção e cuidados em demência apontou em seu último relatório. O documento, lançado em 2024, indica 14 fatores de risco modificáveis que respondem por cerca de 45% dos casos:

O novo estudo não apenas confirma muitos desses fatores, mas revela dezenas de associações adicionais em domínios muito mais amplos que, até então, não estavam integrados em um modelo unificado.
“Há alguns anos já sabemos que o risco de desenvolver demência não está apenas nos nossos genes. Existem fatores ambientais a que somos expostos ao longo da vida, desde o momento em que nascemos, que aumentam o risco”, comenta Daniel Yankelevich, neurologista do comportamento do Hospital São Paulo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “E são fatores modificáveis, então, se a gente agir neles, consegue reduzir o risco de demência”.
O diferencial do estudo, diz Yankelevich, é não se limitar a avaliar poucas exposições. “(O trabalho) chegou a centenas de exposições, mas depois viu que a maioria não tinha associação com demência e reduziu para algumas dezenas. Então, mostrou que é muito mais complexo do que aqueles 14 fatores (da Lancet).”
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O que aparece associado ao aumento do risco
Na vida social e financeira, os fatores associados a maior risco de desenvolver demência foram desemprego, dificuldades financeiras, baixa escolaridade e morar de aluguel.
Nos hábitos: fumar, consumir álcool com frequência, dormir pouco ou demais, cochilar de dia e nunca comer ovos.
Na saúde emocional, os destaques foram sentir-se deprimido, ansioso, sem ânimo ou isolado e, no ambiente, a poluição do ar por dióxido de nitrogênio.

Poluição do ar é um dos fatores associados a maior risco de demência Foto: Bruno Escolástico/Adobe Stock
O uso de muitos medicamentos também aparece, mas os autores avaliam que isso provavelmente reflete problemas de saúde acumulados, e não o efeito dos remédios.
Esse é, inclusive, um ponto que vale ser ressaltado: o estudo estabelece associações. Não é possível dizer que são relações de causalidade. Como se trata de um estudo observacional, são necessárias mais pesquisas para descartar causalidade reversa — isto é, quando a doença ou condição de saúde em estágio inicial, ainda não diagnosticada, é que influencia o hábito ou a exposição estudada, e não o contrário — ou fatores de confusão.
Por exemplo, no caso da polifarmácia, o uso de múltiplos remédios pode não ser uma causa direta do desenvolvimento de demência, mas sim as doenças concomitantes para as quais essas medicações foram receitadas.
Yankelevich lembra ainda que muitos desses fatores também estão associados a um nível socioeconômico desfavorável e, consequentemente, à maior dificuldade de acesso à saúde.
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O que pode ajudar a proteger
Alguns fatores protetores contra as demências encontrados no estudos já são conhecidos. É o caso da atividade física, como caminhadas, outros tipos de exercício e até tarefas como jardinagem e carpintaria; morar com um parceiro e ter renda familiar mais elevada.
Chamam atenção ainda o consumo de queijo e aves e o uso de computador e celular, também associados a um menor risco das doenças.
Para Yankelevich, o estudo é um gerador de hipóteses. “Por exemplo, teve uma associação entre comer ovo e menor risco de demência. O que a gente tem de entender agora é se existe algo no ovo que pode diminuir o risco de demência ou se essa diminuição é secundária a uma maior ingesta de proteína, melhor nutrição, melhor nível socioeconômico e assim por diante.”
Ou seja, o próximo passo é “destrinchar os fatores mais importantes para entender qual a relação do risco com a demência”, ele diz. Esses são pontos que devem ser alvo de futuras pesquisas e os resultados podem ser usados para embasar políticas públicas de prevenção de demência.

Nova ferramenta para prever o risco
Os pesquisadores também desenvolveram um novo modelo de previsão de risco combinando dados demográficos, o status do gene APOE — o fator de risco genético mais conhecido para a doença de Alzheimer — e o conjunto das exposições (expossoma).
Na análise usando a ferramenta, pessoas com pontuações de risco no quartil mais alto (isto é, com mais fatores ligados ao risco) apresentaram quase três vezes mais chances de desenvolver demência durante o acompanhamento do que aquelas no quartil mais baixo (com mais fatores ligados à proteção).
Os autores do estudo explicaram ao Pulsa que, em geral, um score mais alto refletia um perfil de exposição menos favorável, incluindo fatores como maior número de medicamentos, duração do sono fora do ideal, maior exposição à poluição do ar, desemprego, dificuldades financeiras e menor escolaridade.
Do outro lado, o grupo com score menor praticava mais atividade física, tinha ritmo de caminhada mais rápido, renda familiar mais alta e usava mais o computador.
“É importante notar que nenhuma exposição isolada determina o score, que capta o padrão combinado de múltiplas exposições, de modo que indivíduos com scores semelhantes podem chegar a essa pontuação por meio de combinações diferentes de exposições”, diz a pesquisadora de Harvard Chenshuang Li.
A autora ressalta que se trata de uma ferramenta de pesquisa para estratificação de risco, e não para decisões clínicas individuais, para as quais são necessários mais estudos para a validação em outras populações. Um score alto não significa que a demência é inevitável; da mesma forma, uma pontuação baixa não significa que a pessoa esteja completamente protegida.
“O score pode ajudar a identificar grupos com diferentes perfis gerais de exposição e níveis de risco futuro de demência, apoiando pesquisas de prevenção em nível populacional e o estudo de grupos de maior risco”, conclui.












