Menos vontade de beber, mudanças no interesse por alimentos e relatos de redução de compras impulsivas.
Medicamentos como Mounjaro, Ozempic e Wegovy estão chamando a atenção por possíveis efeitos que vão além do controle do peso e da glicose. Entretanto, essas observações têm níveis diferentes de comprovação científica.
A semaglutida, princípio ativo de Ozempic e Wegovy, atua no receptor do hormônio GLP-1. A tirzepatida, presente em Mounjaro e Zepbound, atua nos receptores de GLP-1 e GIP.
Esses medicamentos ajudam a regular a glicose e o apetite, mas seus resultados e indicações não devem ser tratados como iguais.
Os benefícios no tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade, nas condições aprovadas para cada produto, já foram demonstrados em estudos clínicos. Já a possibilidade de tratar dependências ou comportamentos compulsivos continua em investigação.
Menos vontade de beber: o que os estudos mostram
Um ensaio publicado em 2025 na revista JAMA Psychiatry acompanhou 48 adultos com transtorno por uso de álcool durante nove semanas.
A semaglutida reduziu o desejo de beber e algumas medidas de consumo em comparação com placebo, mas não houve melhora significativa em todos os indicadores avaliados.
Em 2026, outro ensaio, com 108 participantes com obesidade e transtorno por uso de álcool, encontrou uma redução maior dos dias de consumo excessivo entre os que receberam semaglutida.
O acompanhamento durou 26 semanas, e os dois grupos também receberam terapia cognitivo-comportamental. Uma pesquisa com semaglutida oral, divulgada em julho de 2026, acompanhou 50 adultos durante oito semanas.
Houve redução de dias de consumo excessivo e de alguns problemas relacionados ao álcool, mas o medicamento não superou o placebo na medida principal de desejo de beber avaliada em laboratório.
Os resultados reforçam o interesse científico, sem estabelecer uma solução definitiva. Para apostas, compras impulsivas e outros comportamentos compulsivos, a evidência é mais limitada.
Há relatos pessoais e casos clínicos, mas eles não demonstram, por si só, eficácia. Os resultados obtidos com semaglutida também não podem ser automaticamente atribuídos à tirzepatida.
Paladar, preferências e recompensa cerebral
Uma das hipóteses é que esses medicamentos influenciem circuitos cerebrais envolvidos na motivação e na recompensa.
Estudos em animais e pesquisas em humanos sustentam essa linha de investigação, mas ainda não explicam completamente as mudanças de comportamento relatadas.
Isso não significa que as canetas eliminem a impulsividade ou alterem a personalidade de maneira previsível.
No paladar, os resultados ainda divergem. Um estudo controlado com 30 mulheres com obesidade e síndrome dos ovários policísticos encontrou melhora no reconhecimento de sabores após 16 semanas de semaglutida.
Outra pesquisa, que comparou 46 usuários de medicamentos GLP-1 com 46 pessoas que não os utilizavam, encontrou desempenho inferior nos testes de paladar, sem diferença estatisticamente significativa no olfato.
São estudos pequenos, com métodos e participantes diferentes. Portanto, não é possível afirmar que esses medicamentos sempre aumentem ou reduzam o paladar.
Mudar a preferência por um alimento também não é o mesmo que perder a capacidade de sentir seu sabor ou cheiro.
Uma reportagem da Reuters mostrou que empresas de perfumes estão investigando possíveis mudanças na preferência por fragrâncias entre usuários desses medicamentos. Esse interesse comercial, porém, não comprova uma alteração do olfato.
Quanto ao humor, a FDA informou em janeiro de 2026 que sua revisão não identificou aumento do risco de pensamentos ou comportamentos suicidas. Isso também não transforma os medicamentos em tratamentos comprovados para depressão ou ansiedade.
Efeitos frequentes e complicações menos comuns
Náuseas, vômitos, diarreia, constipação, dor abdominal e desconforto digestivo estão entre os efeitos conhecidos. Na bula japonesa do Mounjaro, esses sintomas aparecem na categoria de frequência de 5% ou mais.
A intensidade varia, e os sintomas podem exigir acompanhamento, especialmente quando prejudicam a alimentação e a ingestão de líquidos. Vômitos e diarreia podem provocar desidratação e, em situações graves, comprometimento dos rins.
Também existem alertas para cálculos e inflamação da vesícula, pancreatite e obstrução intestinal. Essas complicações não têm a mesma frequência dos desconfortos gastrointestinais comuns, e algumas têm frequência desconhecida nas bulas.
Em janeiro de 2026, a agência britânica MHRA reforçou os avisos sobre pancreatite aguda, incluindo relatos raros de casos graves e fatais. Dor abdominal intensa e persistente, que pode se irradiar para as costas e ocorrer com vômitos, exige atendimento médico imediato.
Registros de suspeitas de reações adversas ajudam a identificar riscos, mas não comprovam que o medicamento causou cada ocorrência notificada.
Tirzepatida pode interferir na pílula anticoncepcional
A tirzepatida retarda o esvaziamento do estômago e pode reduzir a eficácia de anticoncepcionais orais, principalmente no início do tratamento e após aumentos de dose. Essa interação está descrita na bula japonesa do Mounjaro.
A orientação da bula americana é utilizar um método contraceptivo não oral ou acrescentar um método de barreira, como preservativo, durante quatro semanas após o início e quatro semanas após cada aumento de dose.
A escolha deve ser discutida com o profissional responsável. Essa recomendação específica da tirzepatida não deve ser generalizada para todos os medicamentos GLP-1.
O que acontece depois da interrupção
Com a retirada do medicamento, o efeito de redução do apetite pode diminuir e o peso pode voltar a subir.
Na extensão do estudo STEP 1, um ano após a retirada da semaglutida e do acompanhamento estruturado de estilo de vida, os participantes recuperaram, em média, cerca de dois terços do peso que haviam perdido.
No estudo SURMOUNT-4, participantes que passaram da tirzepatida para placebo tiveram aumento médio de 14% no peso ao longo das 52 semanas seguintes, calculado sobre o peso no momento da troca. Quem continuou o medicamento perdeu mais 5,5%, em média.
São resultados de grupos de pesquisa, e não uma previsão individual, mas mostram a importância de planejar a manutenção do tratamento.
Como esses medicamentos são utilizados no Japão
No Japão, Mounjaro e Ozempic são aprovados para diabetes tipo 2. Para obesidade, existem produtos específicos: Zepbound, com tirzepatida, e Wegovy, com semaglutida.
São medicamentos disponíveis mediante prescrição, e o acesso com cobertura do seguro depende dos critérios clínicos e das regras aplicáveis às instituições e ao acompanhamento.
Para obesidade, as indicações incluem condições de saúde associadas, resposta insuficiente à alimentação e à atividade física e critérios de índice de massa corporal: IMC de pelo menos 35, ou de pelo menos 27 com duas ou mais condições relacionadas à obesidade.
Os requisitos completos variam conforme o produto. O Wegovy também recebeu indicação para determinados casos de esteato-hepatite associada à disfunção metabólica, conhecida como MASH.
O Ministério da Saúde japonês reforçou em junho de 2026 os cuidados com o uso fora das indicações aprovadas e reiterou o aviso em outubro, após alertas relacionados à cetose.
A orientação é evitar o uso indiscriminado para emagrecimento estético e obter os medicamentos pelos canais regulares.
Iniciar, interromper ou modificar o tratamento exige avaliação médica, considerando benefícios, efeitos adversos, outros medicamentos e o planejamento de longo prazo.
Fontes: JAMA Psychiatry, The Lancet, American Journal of Psychiatry, Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, Physiology & Behavior, Diabetes, Obesity and Metabolism, JAMA, FDA, PMDA, Ministério da Saúde do Japão, MHRA, BBC Science Focus e Reuters












