Tarcísio confirma manutenção de 2 secretários, mas fecha as portas para volta de Kassab ao governo

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Tarcísio de Freitas revela conselho a Flávio e admite disputar a Presidência em 2030

Entrevista exclusiva: Governador reeleito critica política fiscal do governo, defende reforma do Judiciário e revela nomes de secretários. Crédito: Lucas Ghitelar e Léo Souza/Estadão (imagens) e Joaquim Macruz (edição)

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), afirmou, em sua primeira entrevista exclusiva após a reeleição, que deve manter a maior parte do secretariado que o acompanhou na primeira gestão à frente do Estado. Durante a entrevista ao Estadão, ele confirmou duas permanências no segundo mandato: Geraldo Melo Filho, na Agricultura, e Marília Marton, na Cultura. Durante a entrevista, ele também rechaçou a volta do presidente do PSD, Gilberto Kassab, ao governo.

O governador reeleito também falou sobre a relação com o governo federal e disse ter ligado para o presidente do PT, Edinho Silva, após o resultado que deu a vitória ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) contra Flávio Bolsonaro (PL), que era apoiado por Tarcísio. Ele disse ter cumprimentado Edinho pela vitória de Lula e disse ser interesse de São Paulo trabalhar em conjunto nas questões que contribuem para os paulistas.

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), em entrevista exclusiva ao Estadão  Foto: Taba Benedicto/Estadão

Veja o trecho em que Tarcísio trata da relação com o governo federal e dos planos para seu segundo governo:

O que, de fato, o senhor pode mudar no segundo mandato? Tem na cabeça quando é que o senhor vai construir essa nova equipe? E quanto ela será parecida com essa?

A gente está iniciando as conversas agora para o novo governo. É um governo de continuidade. Obviamente, a população está dizendo “Poxa, estou te dando (mais quatro anos). Acho que você merece continuar.” Ou seja, a reeleição significa manter o que está dando certo e melhorar o que está dando errado. Obviamente, a gente tem sempre que fazer autocrítica, sempre tem pontos que você pode melhorar. Somos muito exigentes conosco. Sabemos que há pontos para melhorar, que há pontos para aperfeiçoar. E, obviamente, isso demanda aperfeiçoamentos na equipe.

Eu já convidei, por exemplo, o secretário Geraldo (Melo Filho) para continuar na (Secretaria de) Agricultura. Eu vou convidar a Marília (Marton) para continuar na Cultura. Então, a maioria dos secretários deve permanecer. Vamos manter a linha de ter um secretariado técnico. Isso é uma coisa que hoje os partidos já compreendem muito melhor, que é que a política seja sócia dos resultados. E, para isso, precisa ter um time que seja o mais profissional possível.

Algumas secretarias vão mudar. Agora eu estou naquela fase de entrevistar candidatos e olhar currículos. O caso que eu estou fazendo hoje é na Secretaria de Saúde, por exemplo. A gente deve mudar o comando da secretaria e eu estou fazendo algumas entrevistas. Já entrevistei três pessoas de excelente currículo e tenho mais duas entrevistas nos próximos dias. A gente está avaliando o melhor perfil. Mas eu quero um perfil técnico, que compreenda o SUS e tenha bagagem de gestão para que a gente possa fazer o melhor trabalho possível.

Mas a ideia é anunciar os nomes todos de uma vez ou aos poucos? Tem um prazo?

Eu vou fazer isso nas próximas semanas. E, à medida que a gente for fechando a equipe, a gente vai anunciando. Acabei de dar, em primeira mão, os nomes de dois secretários que vão continuar: o da Agricultura, Geraldo Melo, e da Cultura, Marília Marton.

A Natália Resende continua na Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística?

Vou ter uma conversa com ela hoje sobre as possibilidades, sobre o que ela está pensando.

O Kassab teria lugar nesse secretariado?

Não. Acho que não. Até porque eu tenho, por premissa, que quando a pessoa passa por uma determinada posição, ela não deve voltar. Eu fiz isso na minha vida pessoal. Acho que depois que você passa por um determinado local, o ideal é você não voltar.

De forma objetiva, quais serão as principais entregas deste segundo mandato?

O principal é que eu quero um Estado mais digital e mais próximo ao cidadão. Um Estado que tenha capacidade de reduzir as filas da saúde, que entregue mais equipamentos e mais cirurgias e consiga prestar um serviço melhor. Atenção básica é uma competência do município, mas o Estado tem ajudado com recursos, a gente criou o Incentivo de Gestão Municipal.

Um Estado mais seguro. Quero ter os indicadores cedendo. Os indicadores têm caído, mas a gente precisa garantir a sensação de segurança. As pessoas não se sentem seguras, e a gente sabe que tem um longo desafio pela frente. Então, um Estado mais digital, mais próximo, um Estado mais seguro.

E tem as grandes obras que são importantes. O Trem Intercidades Campinas-São Paulo, o túnel Santos-Guarujá, a duplicação Caraguatatuba-Ubatuba, as várias extensões de linhas do transporte metroviário. Além das obras de expansão, tem a melhoria do serviço, que está muito ligada, por exemplo, ao sistema de sinalização. Isso é uma coisa que pouco se discute, mas é o sistema de sinalização que consegue reduzir o intervalo de viagem. O tempo entre viagens, entre trens, e isso acaba fazendo que você tenha que ter mais trens à disposição. E você melhora muito a prestação do serviço.

Então, são os grandes objetivos. Fazer o melhor para o cidadão. A gente investe muito no Superação SP, que eu acho que é um bom programa de superação da pobreza. A gente vai continuar investindo na formação profissional, muito focado nas profissões do futuro. E o que a gente quer? Que o Estado dê um grande exemplo de como pode se conectar a vocações. A vocação da biotecnologia.

Então, a gente deve ter aqui em São Paulo o maior centro de biotecnologia da América Latina, que será o Centro do Butantan. A gente vai produzir, inclusive, anticorpos monoclonais. É importante para a indústria farmacêutica, importante para a fabricação dos medicamentos de alto custo. E aí, isso está no contexto da absorção da FURP (Fundação para o Remédio Popular) pelo instituto Butantan.

A vocação da transição energética. Então, a gente tem um plano até 2050 de energia, e a gente vai aproveitar muito mais o nosso potencial para o biometano. O biometano que vem do resíduo sólido, o biometano que vem do processamento da cana, que é uma indústria circular, se aproveita tudo. A gente tem, obviamente, a questão dos biocombustíveis que vão entrar em outras áreas, inclusive na navegação. A gente está começando a fazer os primeiros carregamentos de navio por meio do etanol. Então, isso cria um mercado para a gente gigantesco.

Economia de conhecimento. E aí, eu não estou falando só de abrigar data center, mas eu estou falando de treinar inteligência artificial, eu estou falando supercomputador. E, obviamente, toda a formação de mão de obra para isso. Então, é também uma grande vocação. E a segurança alimentar. O nosso objetivo é levar a agricultura de precisão, também, para o pequeno agricultor. Então, isso aí passa pelo fortalecimento das nossas CATIs (Diretorias de Assistência Técnica Integral), fortalecimento da nossa assistência técnica integral.

O senhor falou sobre a integração com o governo federal. Durante a campanha, o senhor acusou o governo Lula de atrasar a liberação de empréstimos. A gente até fez uma reportagem que mostra que alguns Estados conseguiram a liberação mais rápida, de fato. Como é que o senhor espera que seja a relação com o governo federal nesse próximo mandato?

A gente vai tentar sempre colocar o interesse de São Paulo em primeiro lugar. Por mais que eu tenha divergência com o Lula e com o PT, e eu vou continuar fazendo oposição, naquilo que diz respeito ao interesse de São Paulo vou sentar também para conversar, para convergir. O Estado de São Paulo não pode ser punido por ter eleito um governador de oposição do governo federal. E a gente precisa realmente trabalhar com Brasília, assim como eu trabalho com os municípios aqui.

Observe que eu não olho partido quando eu faço a minha interação com os prefeitos. Nós temos um problema em Mauá, que é o financiamento do Hospital Nardini, que é municipal. A gente assinou convênio para remunerar os procedimentos pela Tabela SUS Paulista. Eles precisam de obras de contenção de cheias. Então estamos fazendo obras de drenagem urbana e de pavimentação.

Eu fui bem votado em Mauá, ganhei a eleição lá. Aliás, ganhei a eleição nos quatro municípios administrados pelo PT em São Paulo. Eu tenho compromisso com as pessoas.

Acho que a interação com o governo federal começou de uma forma republicana no início do mandato. Aproximando a eleição, obviamente, houve um recrudescimento, mais dificuldade.

A gente de fato teve dificuldade para obter liberação de operações de crédito, mesmo tendo indicadores fiscais, índice de liquidez, poupança corrente líquida, indicadores que nos permitiam pegar essas operações de crédito. O que a gente tem de estoque de dívida consolidado em relação à receita corrente líquida caiu ao longo do tempo. Então, a nossa dívida é decrescente no tempo. A gente tem limite de endividamento de 200% da receita corrente líquida. Hoje, a gente tem um pouco mais de 120%. Então, a gente tem espaço e tinha dificuldade de contrair operação de crédito. Vários venceram por falta de encaminhamento para o Senado, no caso das operações de crédito externas que a gente precisava do aval do Tesouro. Sequer foram encaminhadas para o Senado. Operações com o Banco Europeu de Investimentos, operação com o Banco Mundial e, no caso das operações com o Banco do Brasil, nós tivemos que pressionar o Supremo Tribunal Federal para a operação ser liberada. Isso depois de 90 dias de espera, quando outras unidades da federação tinham a liberação, na média, em 20 dias. Isso é punir a população de São Paulo.

Eu espero que isso não aconteça nesse próximo mandato presidente. Obviamente, pretendo conversar com os ministros, com o próprio presidente da República, naquilo que interesse ao Estado de São Paulo.

Nunca tive o problema de sentar na mesa para discutir ações conjuntas que vão favorecer o Estado de São Paulo como, por exemplo, no caso do Túnel Santos- Guarujá, que deve começar a obra já no próximo ano e é uma obra que a gente vai fazer em parceria com o governo federal. O que interessa é atender os cidadãos de São Paulo da melhor forma possível e ver os projetos saindo do papel.

O que o senhor disse, o senhor disse que vai conversar com o presidente, conversar com outras figuras do governo. Após a eleição, o senhor ainda não conversou com o presidente ou com um aliado mais próximo dele ou já tem algum tipo de relação?

Conversei com o presidente do PT, com o Edinho, transmitindo os meus cumprimentos pela vitória e, obviamente, dizendo do meu interesse que, naquilo que é interesse do Estado de São Paulo, trabalhar da melhor forma possível, contribuir com os cidadãos de São Paulo, com os cidadãos da Nação.

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