A economia da Argentina atravessa um período de intensa reconfiguração sob a gestão do presidente Javier Milei. Dados recentes revelam que o país registrou o fechamento de 31,3 mil empresas desde o início do mandato, o que representa uma redução de 6,1% no total de companhias registradas. Paralelamente, o mercado de trabalho formal sofreu um impacto significativo, com a eliminação de 245 mil postos de trabalho em um intervalo de 31 meses.
O cenário, detalhado pelo informe Monitor Mensal de Empresas da Fundar, aponta que a queda no número de estabelecimentos comerciais e industriais atingiu 23 das 24 províncias argentinas. A única exceção ao quadro de retração é a província de Neuquém, impulsionada pela exploração de gás natural na região de Vaca Muerta, que mantém números positivos nas exportações.
Impacto no mercado de trabalho e desemprego
A crise no setor empresarial reflete diretamente nos índices de ocupação. Segundo levantamento do Centro de Economia Política Argentina (Cepa), entre novembro de 2023 e junho de 2024, o país perdeu 245,6 mil empregos privados formais. Embora tenha havido um crescimento de 8,3% no número de trabalhadores autônomos, especialistas alertam que essa migração indica uma precarização das relações laborais, com a substituição de empregos protegidos por atividades informais.
Como consequência, a taxa de desemprego oficial, medida pelo Indec, atingiu 7,9% da população economicamente ativa no primeiro semestre de 2026. O índice representa uma alta de 0,3 pontos percentuais em comparação ao mesmo período do ano anterior, evidenciando a dificuldade de absorção da mão de obra pelo mercado em meio às reformas estruturais propostas pelo governo.
Divergência entre controle inflacionário e crescimento industrial
Um dos pontos centrais do debate econômico atual é o contraste entre a queda da inflação e a retração da atividade produtiva. A taxa anual de inflação recuou de 289%, em abril de 2024, para 33,5% em agosto de 2026. Contudo, economistas como Paulo Gala, da FGV-SP, argumentam que essa estabilidade é sustentada por variáveis frágeis, como cortes profundos de gastos públicos e a manutenção de uma moeda sobrevalorizada.
A valorização do peso, embora auxilie no controle de preços, tem penalizado severamente o setor industrial, que acumulou queda de 2,6% em 12 meses. O segmento de equipamentos eletrônicos e médicos apresenta o cenário mais crítico, com retração de 19,1%. Para Gala, a estratégia atual compromete a competitividade da indústria nacional e limita o fôlego de crescimento do país a longo prazo.
Críticas internacionais e posicionamento do governo
A gestão de Javier Milei tem sido alvo de análises divergentes. Mesmo publicações que historicamente apoiam agendas liberais, como a revista The Economist, têm emitido alertas sobre os efeitos colaterais das políticas de desregulação. Em editorial recente, a publicação britânica pontuou que os salários reais permanecem abaixo dos níveis registrados no início da gestão e que o país necessita de medidas que estimulem o crescimento real, além do rigor fiscal.
Em contrapartida, o presidente argentino mantém a defesa de sua agenda. Em discurso no final de agosto, Milei rebateu as críticas ao destacar indicadores de consumo privado e o crescimento de 4,4% do PIB em 2025. O mandatário argumentou que o fechamento de empresas ineficientes faz parte de um processo de amadurecimento econômico, afirmando que o país deve se afastar do chamado “capitalismo de compadrio” para alcançar uma economia sustentável. Para mais detalhes sobre os indicadores oficiais, consulte o Indec.













