Como um corante criado no Brasil torna cirurgias de retina mais seguras


Retina tem dez camadas delicadas e transparentes que, reunidas, têm em média 0,2 milímetro de espessura
Retina tem dez camadas delicadas e transparentes que, reunidas, têm em média 0,2 milímetro de espessura Imagem: Getty Images

“Tentamos, primeiro, o açaí”, conta o doutor. Esse corante, ainda experimental, é capaz de tingir de roxo determinadas estruturas dos olhos. “Tentamos também desenvolver algo a partir de uvas”, relembra. “No entanto, o resultado foi um corante menos estável.” Essa ideia empacou. Até que — bingo! — resolveram investigar a luteína, um pigmento amarelo encontrado em vegetais, mas que também é muito presente na mácula, a região central da retina, responsável por captar os detalhes de cada imagem que você vê por aí.

A questão é que, na paleta dos oftalmologistas, o tom amarelo não combina com nada muito bem. É que, durante uma operação, quando eles fazem três pequenos furos na “parte branca” do olho para alcançar a retina — “um para injetar soro, outro para passar o instrumental e um terceiro para a luz”, descreve o doutor —, essa estrutura salta aos olhos. Parece gigantesca através das lentes do cirurgião, apesar de seus 5 milímetros de diâmetro, e lembra um sol radiante e alaranjado. Desse modo, tudo ficaria muito monocromático. “Na verdade, precisamos de corantes que criem contrastes, destacando apenas a camada que desejamos manipular”, explica.

Por isso, os pesquisadores da Unifesp combinaram a amarelada luteína com outras substâncias, conseguindo que o corante à base dela fosse capaz de esverdear a membrana limitante interna, uma daquelas dez camadas da retina. Esta, no caso, faz o limite com o gel que “recheia” as bolas dos nossos olhos, o chamado humor vítreo.

“Isso torna possível visualizar essa membrana com bastante clareza, o que é importante porque existem situações em que precisamos removê-la”, explica o doutor. Isso acontece quando há um buraco na mácula, isto é, na parte central da retina, provocado por traumas ou até por doenças oculares. Ao arrancar a camada limitante interna com uma pinça, força-se a cicatrização e há uma boa chance de o rombo se fechar.

“Sem usar um corante, seria muito difícil fazer isso sem arrastar outras camadas com o instrumento, já que elas são completamente transparentes por natureza”, explica o oftalmologista.



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