Um levantamento inédito revela um abismo na distribuição de recursos públicos destinados à segurança no Brasil. Segundo a pesquisa “O Funil de Investimentos da Segurança Pública nos Estados Brasileiros”, realizada pelo centro de pesquisa Justa, para cada R$ 1 investido em políticas exclusivas para pessoas egressas do sistema prisional em 2025, os estados destinaram R$ 5.423 às forças policiais. O estudo, que será apresentado no 20º Encontro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, evidencia a priorização da estrutura de encarceramento em detrimento da reintegração social.
A análise abrangeu 26 unidades federativas, com exceção do Acre, que não forneceu dados. O cenário aponta para uma intensificação da desigualdade orçamentária em comparação ao ano de 2024, quando a proporção era de R$ 4.877 para as polícias contra R$ 1 para egressos. Esse modelo de gestão, descrito como um “funil de investimentos”, concentra verbas na porta de entrada do sistema criminal, negligenciando etapas fundamentais para a redução da reincidência.
Concentração de recursos e o modelo de policiamento ostensivo
O orçamento destinado às polícias estaduais saltou de R$ 87,5 bilhões em 2024 para R$ 103,5 bilhões em 2025. Dentro desse montante, a desproporcionalidade interna é evidente: as Polícias Militares, focadas no patrulhamento ostensivo, absorveram R$ 60,7 bilhões, o equivalente a 58,6% do total. Em contrapartida, as Polícias Civis e as unidades Técnico-Científicas receberam fatias significativamente menores, indicando uma fragilidade crônica em inteligência e investigação.
Para Luciana Zaffalon, diretora-executiva do Justa, essa lógica sustenta um modelo de encarceramento em massa marcado por falhas na produção de evidências. O crescimento desses gastos está atrelado, segundo a coordenadora de pesquisas Taciana Santos, ao fortalecimento do populismo penal, onde a insegurança é instrumentalizada como pauta central de campanhas eleitorais.
O sistema prisional e o custo do encarceramento
O sistema prisional consumiu R$ 22,3 bilhões em 2025. O estudo estima que R$ 13,7 bilhões desse montante foram aplicados no encarceramento de pessoas negras, representando R$ 6 de cada R$ 10 investidos na área. Enquanto os gastos totais com o sistema se mantêm estáveis, o direcionamento das verbas tem privilegiado a expansão da estrutura física de presídios, muitas vezes em detrimento de despesas essenciais como saúde e alimentação dos apenados.
A precarização das condições de custódia, aliada à baixa capacidade de combate ao crime organizado, cria um ciclo de vulnerabilidade. A falta de investimentos na saída do sistema prisional impede que indivíduos acessem direitos básicos, como documentação, moradia e trabalho, mantendo-os em um estado de marginalização que favorece a reincidência criminal.
A estagnação das políticas para egressos
Apesar da relevância para a segurança pública, as políticas exclusivas para egressos permanecem com orçamentos residuais. Em 2025, o investimento total nessa área foi de apenas R$ 19 milhões, um valor praticamente estagnado em relação aos R$ 18 milhões registrados no ano anterior. Apenas sete estados realizaram aportes específicos para essa finalidade, sendo que São Paulo concentrou a maior parte dos recursos, com R$ 13,3 milhões.
O cenário demonstra que, enquanto o Estado prioriza a manutenção da estrutura de detenção, as ações voltadas para a reconstrução da vida após o cumprimento da pena são negligenciadas. A ausência de suporte na reinserção social limita as chances de egressos se afastarem do sistema prisional, perpetuando um ciclo que, segundo especialistas, não resulta em maior segurança efetiva para a sociedade.












