A estética do trabalho nas areias cariocas
A força criativa e a resiliência dos trabalhadores ambulantes que ocupam as praias do Rio de Janeiro ganham destaque na exposição Não Somos Mula. A mostra, assinada pelo fotógrafo Rogério Reis, está em cartaz no Centro Municipal Hélio Oiticica, no centro da capital fluminense, com visitação aberta até o dia 30 de agosto.
A exposição reúne cerca de 120 fotografias, sendo que a maior parte do acervo é exibida ao público pela primeira vez. O título da mostra faz uma alusão direta à rotina exaustiva dos vendedores, que carregam grandes volumes de mercadorias, como os tradicionais vendedores de mate, para garantir o sustento diário nas areias da orla.
O olhar de Rogério Reis transforma o cotidiano em arte, ao registrar como carrinhos, caixas térmicas e suportes improvisados se tornam verdadeiras esculturas urbanas. Segundo o fotógrafo, o objetivo é realizar uma sistematização poética das ferramentas e das “gambiarras” utilizadas pelos trabalhadores para organizar seus produtos, conferindo um caráter lúdico e artístico a uma atividade marcada pela precariedade.
Geografia da ocupação e o registro documental
O trabalho de documentação fotográfica concentrou-se majoritariamente na praia de Copacabana, local onde a atividade ambulante possui maior densidade. Os registros restantes foram capturados nas faixas de areia do Arpoador, Ipanema e Leblon, compondo um painel abrangente da dinâmica de trabalho na zona sul carioca.
As imagens e projeções apresentadas funcionam como um contraponto à dureza do trabalho manual. Ao elevar o status desses objetos de transporte, Reis busca provocar uma reflexão sobre a capacidade de inovação desses autônomos, que constroem soluções complexas para viabilizar o comércio informal em um ambiente de constante instabilidade.
Tensões urbanas e o Programa Tolerância Zero
A abertura da exposição ocorre em um cenário de alta tensão política no Rio de Janeiro. A prefeitura implementou o Programa Tolerância Zero, uma iniciativa de ordem urbana que intensificou a fiscalização contra ambulantes que atuam sem credenciamento oficial. O governo municipal justifica a ação alegando que o comércio irregular estaria sendo explorado por facções do crime organizado.
A medida, contudo, enfrenta forte resistência do Movimento Unido dos Camelôs (Muca), que tem realizado protestos na cidade. Os trabalhadores denunciam que a política de repressão os trata como criminosos, ignorando a necessidade de diálogo e a urgência de políticas públicas que garantam o direito ao trabalho para milhares de famílias.
Debates jurídicos e o futuro da atividade
O Ministério Público Federal também questiona a legalidade da iniciativa e ajuizou uma ação civil pública solicitando a suspensão imediata do programa. O procurador regional adjunto dos Direitos do Cidadão, Julio Araujo, aponta que a prefeitura falhou ao não promover o diálogo com a União ou com a sociedade civil, além de não apresentar alternativas concretas para a regularização dos profissionais.
Em relatos colhidos durante suas caminhadas, Rogério Reis percebeu o temor dos ambulantes quanto a uma possível privatização das areias. O fotógrafo defende que, em vez de políticas de exclusão, o poder público deveria investir em projetos socioeducativos para qualificar a categoria e garantir melhores condições de trabalho para quem sustenta a economia informal da orla.
Para mais informações sobre o contexto das políticas públicas na cidade, acompanhe as atualizações da Agência Brasil.











