Apostas em bets crescem entre jovens e elevam riscos de dependência crônica

Apostas em bets crescem entre jovens e elevam riscos de dependência crônica

A popularização das plataformas de apostas online, conhecidas como bets, tem gerado um cenário de alerta entre especialistas e grupos de apoio. O fenômeno, que atinge diversas faixas etárias, apresenta um crescimento preocupante entre adolescentes e jovens adultos, frequentemente desprovidos de maturidade financeira para lidar com os riscos inerentes a esse mercado. A facilidade de acesso via dispositivos móveis transformou o celular em um cassino de bolso, disponível 24 horas por dia.

A vulnerabilidade biológica e o apelo das apostas

O cérebro em desenvolvimento é um dos principais fatores de vulnerabilidade para o público jovem. Segundo Mariana Kehl, psicóloga e membro da Sociedade Brasileira de Psicologia, o sistema de recompensa cerebral, focado na dopamina e na sensação de prazer, opera em alta velocidade nessa fase da vida. Em contrapartida, as áreas responsáveis pelo controle de impulsos e pela avaliação de riscos a longo prazo só atingem o amadurecimento completo após os 20 anos.

Essa disparidade biológica explica por que jovens sentem com tanta intensidade o prazer de uma vitória, mas carecem de mecanismos internos para frear a compulsão por novas rodadas. Dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) indicam que uma parcela significativa da população global inicia o contato com apostas ainda na infância, uma tendência observada também em pesquisas realizadas no Brasil com estudantes dos ensinos fundamental e médio.

Relatos de superação e o impacto financeiro

O caso de Gustavo Pereira, de 24 anos, ilustra o impacto devastador que a compulsão pode exercer. Iniciando suas apostas aos 18 anos, ele relata ter perdido cerca de meio milhão de reais ao longo de seis anos, período em que o vício distorceu sua percepção sobre o valor do dinheiro. Atualmente, após dois meses sem apostar, ele busca reconstruir sua rotina trabalhando como vendedor de café nas ruas de Lages, em Santa Catarina, e utiliza as redes sociais para compartilhar sua jornada de recuperação.

A gravidade da situação é corroborada por Luiz Carlos, integrante da irmandade Jogadores Anônimos. Com décadas de experiência no acompanhamento de dependentes, ele observa que a faixa etária dos que buscam ajuda tem caído drasticamente, incluindo adolescentes de 14 anos. O grupo atua como um suporte essencial para pessoas que, muitas vezes, chegam ao limite financeiro e emocional, enfrentando quadros de depressão e pensamentos suicidas.

O cenário de endividamento no Brasil

O impacto econômico das bets é um reflexo direto da falta de regulação e da agressividade do marketing voltado ao público jovem. Um relatório do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT) revelou que, em 2024, pelo menos 24 milhões de brasileiros participaram de apostas online, com quase metade desse contingente enfrentando problemas de endividamento. A exploração da imaturidade financeira por canais digitais é apontada como um dos motores que impulsionam esse ciclo de perdas.

Para quem busca sair do vício, a abstinência é o único caminho para a estabilidade. Membros da irmandade, como Carla Xavier, Rogério e Rodrigo, destacam que a busca por ajuda ocorre, em muitos casos, quando o indivíduo já se encontra em situação de insolvência e desesperança. A superação exige não apenas força de vontade, mas o suporte contínuo de grupos de apoio e, em muitos casos, acompanhamento psiquiátrico especializado.

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