Cinema negro avança no Brasil, mas desigualdade estrutural persiste no setor audiovisual

Cinema negro avança no Brasil, mas desigualdade estrutural persiste no setor audiovisual

O cenário do audiovisual brasileiro vive um momento de paradoxos. Enquanto produções de diretores negros ganham projeção internacional, como o filme Feito Pipa, de Allan Deberton, escolhido para representar o Brasil na disputa por uma vaga no Oscar, os dados revelam um abismo persistente na distribuição de recursos e oportunidades. A representatividade nas telas ainda não se traduz em equidade nos bastidores e no acesso ao fomento público.

Desproporção no mercado e no fomento público

A Associação de Profissionais do Audiovisual Negro no Brasil (Apan) aponta que a participação de pessoas negras no setor permanece desproporcional. Na televisão aberta, registros de emprego indicam que 65% dos profissionais são brancos, enquanto apenas 32,6% são pretos e pardos. O cenário na produção cinematográfica é ainda mais restrito, com 69,6% de presença branca contra 29,3% de negra.

A disparidade é acentuada quando se analisa o destino do dinheiro público. Segundo levantamento da entidade, 94% dos filmes que receberam recursos federais foram dirigidos por pessoas brancas. Além disso, produções com orçamentos superiores a R$ 5 milhões são majoritariamente comandadas por diretores brancos, concentrando mais de 90% dessas verbas e moldando o que é consumido pela população brasileira.

Demandas por políticas de reparação e equidade

Diante desse quadro, a Apan divulgou um documento voltado ao setor e a candidatos a cargos eletivos, defendendo a permanência e a ampliação de profissionais negros no mercado. A associação critica a concentração de trabalhadores negros em funções técnicas de menor remuneração e a exposição à informalidade, propondo mecanismos mais robustos de diminuição da desigualdade racial e de gênero.

A entidade propõe o conceito de empresas vocacionadas para a reparação histórica, definidas como aquelas que possuem metade ou mais do quadro societário composto por pessoas negras. Atualmente, a cota de produção estabelece um mínimo de 25% de verbas com ação afirmativa, sendo 15% para negros, 5% para indígenas e 5% para pessoas com deficiência.

Desafios na aplicação da legislação e formação de público

Embora a implementação da Lei Paulo Gustavo tenha trazido avanços, a fiscalização tornou-se um ponto crítico. Tatiana Carvalho, presidente da Apan, relata denúncias de fraudes, como a exclusão de profissionais negros após a liberação de verbas e declarações falsas de raça. A associação defende a adoção de bancas de heteroidentificação para garantir a eficácia das políticas afirmativas.

Além das questões trabalhistas, a formação de público é vista como pilar estratégico. A pesquisadora defende a inclusão de produções cinematográficas negras no ambiente escolar, alinhando o audiovisual à legislação que determina o ensino de história e cultura africana e indígena. Para a entidade, a democratização do acesso ao cinema nacional é um passo fundamental para transformar a indústria e garantir que o público brasileiro conheça a própria identidade cultural.

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