Instalação o Barco expõe cicatrizes do tráfico transatlântico no Sesc Pompeia

Instalação o Barco expõe cicatrizes do tráfico transatlântico no Sesc Pompeia

A exposição O Barco, da artista portuguesa Grada Kilomba, ocupa o Sesc Pompeia, em São Paulo, a partir desta terça-feira (22). A obra propõe uma reflexão profunda sobre o tráfico transatlântico de africanos escravizados, um período de cerca de 400 anos marcado por sequestros e pela mercantilização de milhões de vidas humanas, fenômeno que a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas classifica como um dos crimes mais graves contra a humanidade.

O Brasil, principal destino desse fluxo forçado, recebeu mais de 4,8 milhões de pessoas trazidas em navios negreiros sob condições de extrema violência. A instalação artística busca confrontar o público com essa memória traumática, questionando as narrativas históricas que frequentemente romantizam a expansão marítima europeia sem reconhecer o custo humano oculto no fundo dos oceanos.

Arquitetura da memória e a denúncia da violência cíclica

A estrutura da obra é composta por 134 blocos de madeira queimada, distribuídos em uma área de 220 metros quadrados com 32 metros de extensão. O desenho da instalação reproduz a silhueta do porão de uma embarcação negreira, materializando o espaço confinado onde africanos eram mantidos durante a travessia. Para Grada Kilomba, a peça funciona como uma provocação sobre o que o oceano revelaria caso fosse esvaziado, expondo não apenas o passado, mas a repetição de ciclos de violência que persistem na contemporaneidade.

A artista conecta a tragédia da escravidão a questões atuais, como as migrações forçadas, guerras e crises climáticas. Segundo a autora, o oceano atua como um vasto cemitério de vidas perdidas, onde corpos continuam a ser tragados pelas águas em busca de refúgio. A obra convida o espectador a reconhecer que a omissão histórica sobre esses eventos contribui para a perpetuação da barbárie.

Diálogo com a mitologia e o apagamento histórico

A concepção de O Barco dialoga com a tragédia grega de Antígona, explorando os limites entre quem pode ser enterrado, lembrado e celebrado pela sociedade. A artista utiliza essa referência para questionar por que certas histórias são deliberadamente esquecidas ou proibidas, impedindo que o trauma seja ritualizado e processado coletivamente. O esquecimento, para a criadora, é uma ferramenta que mantém a invisibilidade de um passado que moldou a riqueza e a identidade das nações modernas.

A instalação também apresenta um poema gravado em dourado em 18 blocos centrais, traduzido para idiomas como iorubá, kimbundu, crioulo cabo-verdiano, português, inglês e árabe da Síria. A frase “Uma alma, uma memória. Uma memória, um esquecimento. Um esquecimento, uma ferida” sintetiza a intenção da obra em dar voz ao inconsciente histórico. A adaptação da peça ao espaço do Sesc Pompeia, que exige uma supressão parcial de sua extensão total, reforça a narrativa de que as histórias do tráfico nunca chegaram aos portos de destino de forma íntegra.

Para mais informações sobre a programação cultural, acesse o portal oficial do Sesc São Paulo.

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