O cenário de disputas por terra no Brasil apresentou uma mudança significativa no primeiro semestre de 2026. Dados divulgados pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) revelam que, embora o número de assassinatos no campo tenha sofrido uma redução expressiva em comparação ao mesmo período do ano anterior, a quantidade total de conflitos agrários seguiu uma trajetória de alta, evidenciando a persistência de tensões em diversas regiões do país.
Dinâmica da violência e conflitos agrários
Nos primeiros seis meses de 2026, foram contabilizados seis assassinatos no campo, uma queda acentuada frente aos 27 registros observados entre janeiro e junho de 2025. Contudo, o volume de conflitos saltou de 798 para 841 no mesmo intervalo. A CPT aponta que, apesar da diminuição de mortes individuais, a prática de massacres — quando mais de uma pessoa é assassinada em um mesmo evento — permanece como uma característica preocupante da violência rural.
A análise da comissão indica que a mercantilização e a financeirização da terra são motores centrais dessa instabilidade. O interesse de fundos de pensão e a exploração de terras raras em territórios de comunidades tradicionais e camponesas têm intensificado a disputa por áreas produtivas e de preservação. Segundo a coordenadora nacional da CPT, Cecília Gomes, o campo brasileiro segue distante de um ambiente de paz, onde a permanência na terra ainda exige resistência constante.
Disputas por terra e recursos hídricos
A maior parte das ocorrências registradas em 2026 refere-se a conflitos por terra, totalizando 711 casos. O Maranhão lidera o ranking nacional com 153 registros, seguido pela Bahia, Pará e Rondônia. Um dado alarmante é o aumento de 140% nas ocorrências no Amazonas, que saltaram de 37 para 52 em comparação ao primeiro semestre de 2025. A forma de violência mais frequente nestes embates foi a contaminação por agrotóxicos, que subiu de 98 para 169 casos.
Paralelamente, os conflitos pela água registraram uma expansão notável, passando de 47 para 100 registros em 20 estados. O Pará concentra o maior número de casos, com 16 ocorrências, impulsionadas pela luta de povos indígenas e ribeirinhos contra a privatização de rios e a atuação de garimpeiros. A resistência dessas populações foi determinante para a revogação do Decreto nº 12.600/2025, que visava incluir hidrovias em programas de desestatização.
Trabalho escravo e vulnerabilidade social
Em um movimento distinto dos demais indicadores, as ocorrências de trabalho escravo rural apresentaram queda, com 30 registros no primeiro semestre de 2026, contra 101 no mesmo período do ano anterior. O número de trabalhadores resgatados também diminuiu, passando de 842 para 355. São Paulo destacou-se neste eixo ao apresentar o maior número de resgates, com 148 trabalhadores encontrados, principalmente em atividades ligadas ao cultivo de cana-de-açúcar.
Apesar da redução em casos de trabalho escravo, a violência contra a pessoa em contextos rurais tornou-se mais frequente. O número total de vítimas de violência subiu de 308 para 497. A contaminação por minérios, decorrente do garimpo ilegal na Bacia do Rio Tapajós, atingiu a Terra Indígena Munduruku, no Pará, com 195 casos registrados. Povos indígenas, quilombolas, posseiros e sem-terra permanecem como os principais alvos dessas violações de direitos humanos.











